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Discurso de ódio contra minoria obtém nota 1000 na redação do ENEM



O INEP acaba de divulgar os espelhos das redações do ENEM. Se você participou da edição 2016 da prova, poderá ver o espelho da sua redação no portal do participante. Clique aqui para acessar.

O tema da redação do ENEM 2016 foi “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Aproveitando-se deste fato, o G1 divulgou algumas das redações que obtiveram nota 1000 na prova. Ao lê-las, me deparei com algumas características muito interessantes. Para você seguir o meu raciocínio, estarei replicando abaixo, a redação da candidata Laryssa Cavalcanti de Barros e Silva, também fornecida na matéria do G1:

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O ser humano é social: necessita viver em comunidade e estabelecer relações interpessoais. Porém, embora intitulado, sob a perspectiva aristotélica, político e naturalmente sociável, inúmeras de suas antiéticas práticas corroboram o contrário. No que tange à questão religiosa no país, em contraposição à laicização do Estado, vigora a intolerância no Brasil, a qual é resultado da consonância de um governo inobservante à Constituição Federal e uma nação alienada ao extremo.

Não obstante, apesar de a formação brasileira ser oriunda da associação de díspares crenças, o que é fruto da colonização, atitudes preconceituosas acarretam a incrédula continuidade de constantes ataques a religiões, principalmente de matriz africana. Diante disso, a união entre uma pátria cujo obsoleto ideário ainda prega a supremacia do cristianismo ortodoxo e um sistema educacional em que o estudo acerca das disparidades religiosas é escasso corrobora a cristalização do ilegítimo desrespeito à religiosidade no país.

Sob essa conjectura, a tese marxista disserta acerca da inescrupulosa atuação do Estado, que assiste apenas a classe dominante. Dessa forma, alienados pelo capitalismo selvagem e pelos subvertidos valores líquidos da atualidade, os governantes negligenciam a necessidade fecunda de mudança dessa distópica realidade envolta na intolerância religiosa no país. Assim, as nefastas políticas públicas que visem a coibir o vilipêndio à crença – ou descrença, no caso do ateísmo – alheia, como o estímulo às denúncias, por exemplo, fomentam a permanência dessas incoerentes práticas no Brasil. Porém, embora caótica, essa situação é mutável.

Convém, portanto, quem primordialmente, a sociedade civil organizada exija do Estado, por meio de protestos, a observância da questão religiosa no país. Desse modo, cabe ao Ministério da Educação a criação de um programa escolar nacional que vise a contemplar as diferenças religiosas e o respeito a elas, o que deve ocorrer mediante o fornecimento de palestras e peças teatrais que abordem essa temática. Paralelamente, ONGs devem corroborar esse processo a partir da atuação em comunidades com o fito de distribuir cartilhas que informem acerca das alternativas de denúncia dessas desumanas práticas, além de sensibilizar a pátria para a luta em prol de tolerância religiosa.[/otw_shortcode_content_toggle]

Agora vou, parte por parte, debulhar a redação da Laryssa. Vejamos:

“(…)apesar de a formação brasileira ser oriunda da associação de díspares crenças, o que é fruto da colonização”

Segundo a estudante, o Brasil se tornou um país com variadas crenças devido à colonização. Ela porém se esquece de que o Brasil já era, antes da colonização, uma sociedade de crenças variadas – MUITO mais diversa que a de hoje. Praticamente cada tribo indígena tinha os seus próprios deuses e forma de os cultuar. Algumas poucas religiões foram adicionadas ao Brasil após a chegada dos portugueses (o cristianismo e outras poucas religiões de escravos), porém, isso não se deu devido ao processo de colonização, mas sim pela imigração.

Mas até aí tudo bem. Ela apenas interpretou a história de forma equivocada. O esquerdismo começa no segundo parágrafo:

(…)a união entre uma pátria cujo obsoleto ideário ainda prega a supremacia do cristianismo ortodoxo (…)”

Oi? Cristianismo Ortodoxo no Brasil? O cristianismo ortodoxo é quase uma exclusividade da Rússia. Ele chegou ao Brasil apenas no século XIX, quando o país já era colonizado (o que gera mais um problema com o primeiro parágrafo do texto) e, ainda hoje, são uma minoria religiosa: existem apenas 131.571 cristãos ortodoxos no Brasil, segundo dados do Censo 2010.

Sim, você não leu errado: ela jogou a culpa do preconceito contra minorias religiosas em… uma minoria religiosa! Em um país com 123 milhões de católicos, 42 milhões de evangélicos e 588 mil praticantes de Umbanda e Candomblé, a culpa do preconceito religioso é da minoria de 131 mil cristãos ortodoxos. Ao fazer isso, a mesma pratica, explicitamente, o preconceito dela mesma contra essa minoria – que obviamente não pode ser culpada pelos atos de indivíduos de um país de 200 milhões de habitantes. Mas os absurdos no texto dela não param aí:

“(…) a tese marxista disserta acerca da inescrupulosa atuação do Estado, que assiste apenas a classe dominante. Dessa forma, alienados pelo capitalismo selvagem e pelos subvertidos valores líquidos da atualidade, os governantes negligenciam a necessidade fecunda de mudança dessa distópica realidade envolta na intolerância religiosa no país”

Esse talvez seja o “melhor” trecho da redação dela: Karl Marx, que pregava o fim das religiões e a substituição das mesmas pelo culto ao comunismo, é o detentor da resposta para a compreensão do preconceito religioso. Quem mais, além de um aluno padrão MEC, pensaria em algo assim? E, continuando com o esquerdismo, outro culpado apontado é do capitalismo selvagem – inexistente no Brasil, que é internacionalmente reconhecido como uma republiqueta socialista.

Resumindo o que ela falou: os intolerantes religiosos, 131 mil cristãos ortodoxos, que, apesar de serem uma minoria, são favorecidos pelo Estado por serem uma classe dominante (minoria e classe dominante ao mesmo tempo). Os governantes, que são alienados pelo “capitalismo selvagem”, negligenciam a necessidade de mudar isso, ou seja, a culpa pela intolerância religiosa de INDIVÍDUOS é dos governantes!

Sim, os governantes são os culpados porque aquela criança fez a antiga piada do “chuta que é macumba”. A responsabilidade pelas atitudes da criança não é dos pais, não é da própria criança, e nem de quem fez a macumba e colocou na frente da casa deles: a culpa é dos governantes. E o grande salvador de tudo: Karl Marx, o homem cujas doutrinas são praticadas por TODOS os governantes deste país há pelo menos 13 anos.

Mas agora vamos parar de nos ater aos culpados. Laryssa: como resolvemos essa situação?

“Desse modo, cabe ao Ministério da Educação a criação de um programa escolar nacional que vise a contemplar as diferenças religiosas(…)”

Sim, quem vai salvar o nosso dia é o Ministério da Educação – aquele mesmo que implantou a ideologia de Karl Marx em nosso país, incendiando o problema do preconceito religioso. E tem mais:

“Paralelamente, ONGs devem corroborar esse processo a partir da atuação em comunidades”

Ongs em comunidades, ou seja, além de apoiar estas instituições que, em grande parte, de nada a mais servem do que realizar lavagem financeira, ela acredita que apenas as pessoas pobres de comunidades possuem preconceito religioso. Já a “classe dominante”, que ela mesma cita como sendo a controladora do Estado, não precisa de educação neste sentido.

Vamos fazer um resumo do que aprendemos hoje:

  1. A culpa pela intolerância contra minorias é de uma minoria
  2. O cara que passou a vida toda lutando pelo fim das religiões tem a chave pela paz entre elas
  3. Essa mesma minoria controla o Estado que só serve à classe dominante – que é a própria minoria
  4. A culpa também é de um sistema financeiro que curiosamente é inexistente no Brasil
  5. O terceiro culpado não é o indivíduo que cometeu o ato, mas sim “os governantes”
  6. Quem vai resolver o problema é justamente a instituição do governo que o causa, seguindo ensinamentos do cara que passou a vida inteira lutando pelo fim das religiões
  7. Somente gente pobre possui preconceito religioso, embora quem cause o problema seja a minoria que controla o Estado (e supostamente seriam gente rica)

Culpa-se a todos, menos os culpados; tenta-se resolver o problema implantando ainda mais as mesmas políticas que o causaram – está aí o espelho não apenas de uma redação, mas do futuro desse país.

 

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  • Laryssa Cavalcanti

    Sinto muito se não conseguiu compreender o meu texto, a minha ideia passou longe de tudo o que você abordou em seu blog. Venho por aqui deixar claro que não fiz nenhum discurso de ódio, até porque, se eu o tivesse feito, grandes ícones do jornalismo não teriam publicado o meu texto. Talvez exista outra forma mais interessante de você conseguir acessos no seu blog que não fazendo manchetes sensacionalistas e criticando a produção de alguém que não conhece de uma forma extremamente deturpada, tendenciosa e ignorante.

    • A manchete não foi sensacionalista. Você fez um discurso de ódio contra uma minoria religiosa no seu texto, isso é um fato. E não é para menos que você focou seu comentário em atacar meu blog e não em expôr seus argumentos.

      Os “grandes ícones do jornalismo” os quais você cita não passam de estagiários, que são quem escrevem as matérias para os sites, inclusive o G1. E tanto eles quanto você não sabiam o significado de “Cristianismo Ortodoxo”, e por isso não notaram que o significado do termo muda totalmente o tom da sua redação.

      Eu entendi plenamente que você quis jogar a culpa nos cristãos de direita ou conservadores, e que você, até ler meu texto, não sabia o que era Cristianismo Ortodoxo. Parabéns, agora você sabe que jogou a culpa do preconceito religioso em uma minoria de 131 mil pessoas.

      Imagine a repercussão que teria sido caso um cristão tivesse jogado a culpa do preconceito em cima de umbandistas, seria literalmente crucificado.